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Onilé, a Orixá Mãe Terra (Mitologia Africana)

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A cultura e as tradições religiosas africanas têm exercido uma influência profunda na formação da identidade brasileira, especialmente através do candomblé. Entre os elementos essenciais desse sistema de crenças, encontramos a veneração de divindades ancestrais e naturais. Uma figura que desempenha um papel central nessa religião é Onilé, a Terra-Mãe, uma orixá que tem sido cultuada há séculos, mas que muitos seguidores das religiões de matrizes africanas desconhecem.

 

A Origem de Onilé na Cultura Iorubá

Os antigos povos que deram origem aos atuais iorubás ou nagôs, cujas tradições moldaram o candomblé no Brasil, veneravam uma entidade da Terra, a Terra-Mãe. Esta divindade, que recebeu várias denominações em diferentes aldeias e cidades que compõem o complexo cultural iorubá e seus entornos, era conhecida como Onilé, a Dona da Terra, a Senhora do planeta em que vivemos. Além de Onilé, outros nomes eram usados para se referir à Terra-Mãe, como Aiê, Ilé, Ialé, Ije, Ale, Ala, Aná, Ogerê, Buku e Buruku. Entre os jejes do Maranhão e da Bahia, era chamada Aisã.

 

A Evolução da Orixá na Sociedade Iorubá

Onilé era originalmente relacionada aos aspectos essenciais da natureza, exercendo seu patronato sobre atividades como agricultura, caça, pesca e fertilidade. No entanto, à medida que a sociedade iorubá evoluiu para uma estrutura patriarcal, as mulheres perderam parte do poder que tinham sobre essa divindade. O mito relata que, durante uma disputa entre Oyá e Ogum, os homens teriam arrebatado o poder que antes pertencia às mulheres. Com isso, os antepassados masculinos divinizados passaram a ocupar o lugar das divindades primordiais, e houve uma redivisão de trabalho entre os orixás.

Sacerdotes Iorubas
Sacerdotes Iorubás em seu templo em Ife. (Domínio Público)

A Redefinição do Papel de Onilé

Com a reorganização do culto das divindades femininas antigas, elas passaram a representar principalmente a fertilidade das mulheres. Essas divindades passaram a ser associadas aos rios e à água em geral, que simbolizam a fertilização da terra. Entre as divindades femininas que assumiram esse papel, encontramos Yemonjá, Òsun, Obá, Oyá, Yewá e outras, além de Nanã, que representava a lama do fundo do rio.

 

A Preservação na África e sua Perda no Brasil

Enquanto Onilé teve seu culto preservado na África, no Brasil, ele quase desapareceu. Vários fatores contribuíram para esse esquecimento, incluindo o fato de que ela não se manifesta através do transe ritual, ao contrário de muitas outras divindades do candomblé. Além disso, a influência do Kardecismo no Brasil valorizou o transe, relegando divindades que não se manifestam dessa maneira a um segundo plano.

 

O Mito de Onilé na Criação da Terra

De acordo com a lenda no mito de Onilé, ela desempenhou um papel crucial na criação da terra. Ela moldou o solo, preparando-o para receber plantas e animais. Ela também foi responsável pela criação de rios, montanhas e florestas, dando vida ao mundo natural. Essa associação com a terra e a natureza a torna uma figura de grande importância para os agricultores e todas as pessoas que dependem da terra para sobreviver.

Além de seu papel na natureza, Onilé também é considerada uma protetora da justiça e da moralidade. Sua figura maternal é invocada em momentos de conflito e tensão para trazer paz e harmonia às comunidades que a veneram. Ela é vista como uma guardiã da ordem e da retidão, influenciando positivamente a vida das pessoas.

 

Conclusão

Onilé, a Terra-Mãe, é uma divindade feminina que desempenha um papel fundamental na religião dos orixás. Embora seu culto tenha sido negligenciado no Brasil, sua importância é inegável. Ela representa a ligação elemental entre os seres humanos e o planeta em que vivemos, nossa origem primal. Além disso, ela é a base de sustentação da vida, protegendo e possibilitando a existência de todas as formas de vida sobre a Terra.

Nos últimos tempos, Onilé tem despertado curiosidade e interesse entre os seguidores dos orixás, especialmente entre aqueles que buscam uma reconexão com a natureza. Seu culto representa a preocupação com a preservação da humanidade e de todo o ecossistema do planeta. Onilé é a guardiã da Terra, protegendo o mundo em que vivemos e possibilitando a vida de tudo que habita esse planeta, desde as plantas até a humanidade.

À medida que a conscientização sobre a importância da preservação ambiental cresce, Onilé se torna uma figura ainda mais relevante. Seu papel como protetora da natureza e da justiça a coloca no centro dos esforços para garantir um futuro sustentável para todos os seres vivos. Portanto, é essencial reconhecer e honrar Onilé, a Terra-Mãe, como parte integrante da religião dos orixás e como uma guia espiritual na jornada pela preservação da vida em nosso planeta.

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